
Os pesquisadores Margarita Diaz-Andreu e Carlos Garcia
A Universidade de Barcelona e a Universidade de Zaragoza, próximo da cidade de Borja (onde Cecília Gimenez esculhambou o Ecce Homo), uniram-se para uma pesquisa sobre o aproveitamento da acústica em cavernas na ravina de Valltorta, em Castellón (Espanha).
Este estudo envolve os pesquisadores Carlos Garcia Benito (Depto. de Antiguidades da Universidade de Zaragoza – Espanha) e Margarita Díaz-Andreu (Depto. de Pré-História da Universidade de Barcelona – Espanha) exalta a relevância do conhecimento da acústica pelos povos mais “primitivos”.
Que provaram não serem tão primitivos assim.
ARQUEOACÚSTICO
O método, com efeito, é mais interessante do que parece. Os pesquisadores apresentam a possibilidade da acústica ser um diferencial na escolha das cavernas. A proposta do estudo é identificar a associação da força acústica com o ritual que possivelmente envolveria a produção das pinturas pré-históricas datadas no período Mesolítico (entre 9.000 e 6.000 anos atrás).
Vale lembrar que não é de hoje que encontramos esse tipo de parceria entre estímulos visuais e a sonoridade natural produzida pelo relevo de acomodações (naturais ou projetadas). Pirâmides do Egito, Templos Maias e os não menos famosos Stonehengers são estruturas que usam e abusam de recursos auditivos e visuais para transmitir seu recado para quem estiver vendo.
O problema é saber interpretar essa informação.
PINTURAS RUPESTRES NO BARRANCO DE VALLTORTA
Você deve conhecer bem esta expressão Pintura Rupestre (arte rupestre, gravura rupestre ou similares). Basicamente são aquelas pinturas das cavernas, são associadas aos homens primitivos. Cenas envolvendo caçadas, conflitos, nomadismo…
… interação com alienígenas…
… enfim, seja qual for a real intenção daquelas pinturas, o fato é que elas estão aí e sempre exerceram um fascínio todo especial na vida daqueles que se dedicam a estudar esse tipo de achado arqueológico e daqueles menos conhecedores da área.
A área estudada (Valltorta) é famosa pela variedade de pinturas rupestres. A equipe de pesquisadores promete sacudir todo o entendimento que achávamos ter sobre estas pinturas. Tudo indica que as cavernas que abrigam a arte rupestre não eram escolhidas ao acaso, o elemento sonoro era imprescindível para determinar quais cavernas usar.

Carlos Garcia Benito – Graduado em Ciências da Antiguidade pela Universidade de Zaragoza
O ESTUDO
As cavernas mais customizadas eram mais sonoramente expressivas do que as cavernas com menos desenhos. Ao passo que cavernas menos decoradas quase não conseguiam propagar o som, aquelas ricamente adornadas, localizadas no Levante de Valltorta, eram capazes de produzir os passos dos pesquisadores de dentro da caverna para fora dela.
Isso é massa pra caralho!
Ainda, verificou-se uma acústica mais efetiva quando o possível orador do ritual realizasse o ritual de frente para a saída da caverna. As cavernas menos elaboradas, onde convencionou-se acreditar que as reuniões lá eram menos importantes, o uso da acústica era melhor quando o orador falava de frente para a parede e os sons reverberavam em diversas direções.
Puderam constatar em três cavernas customizadas, usadas para o referido estudo, a mesma reverberação do som, de forma eficaz, principalmente para quem estava do lado de fora da caverna.
PUBLICAÇÃO E CONCLUSÃO DO ESTUDO
A divulgação do estudo no Jornal Archeological Science, publicado pelos pesquisadores já mencionados, comprova que, não apenas o elemento sonoro era ferramenta importantíssima para complementar o ritual da pintura pré-histórica em Valltorta, mas dá nova luz ao criticismo normalmente empregado sobre povos “primitivos”.
Provado cientificamente, agora há de se levar em consideração, mesmo que de uma forma razoável, a importância dada pelos antigos sobre a influência do som e dos recursos visuais em empreitadas como essa (sagradas ou não).
CONCLUSÃO DESTE QUE VOS FALA
Algo que cabe reflexão sobre o caso é a problemática da efemeridade da real intenção do uso destes recursos (auditivos e visuais) em rituais tão longínquos quanto a história humana. Acho que não me fiz entender, ainda, mas vamos lá.
Pense no caso das cavernas customizadas em Valltorta e a acústica como ferramenta do ritual.
A real motivação dos antigos em utilizar cavernas com alto poder de propagação do som em sua manifestação artística / religiosa / intelectual acaba se perdendo com o passar do tempo. Antes da escrita, os costumes e a cultura em geral era passada oralmente e, sem a manutenção desse repasse de informações, um posterior estudo e compreensão dos fatos exige uma interpretação muito foda por parte do estudioso.
No início dessa postagem, citei vários monumentos que usam e abusam desses mesmos recursos, a fim de transmitir uma mensagem do passado, porém, sem um entendimento (mínimo que seja) do cenário vivido pelos “primitivos” e de suas motivações, fica realmente complicado decifrar o código.
É como entregar a um babuíno uma pistola desmontada e esperar que ele monte corretamente.
Este estudo escancara para qualquer um o fato de que os homens da pré-história detinham algum conhecimento além do visível, as pinturas não eram apenas pinturas, mas houve uma seleção da caverna que abrigaria as pinturas. Houve uma triagem e isso é uma ferramenta intelectual. O ruim é que não temos qualquer outro indício para investigar suas motivações.
Margarita Diaz-Andreu e Carlos Garcia Benito lançaram luz benfazeja sobre a natureza primitiva dos homens de outrora, porém, entrando no campo subjetivo de suas existências, tudo o que o estudo apresenta é um gritante “talvez”.